2026 - 'Sátiras da Pós-Verdade' exposição / exhibition - Museu Municipal de Faro
Fernando Rosa Dias.
Esta exposição apresenta-nos várias séries de um ciclo de obras que Patrícia Magalhães tem produzido em torno de um livro, uma das maiores referências da história da iluminura românica portuguesa: o Apocalipse do Lorvão (datado de 1189). A partir desse livro que é um Comentário aos livros do Apocalipse, trabalhando o seu texto, as suas imagens, ou até as suas marcas e acidentes, a artista tem desenvolvido uma série de processos criativos que se tornam comentários tanto glosas sobre esse livro como comentários sobre os meios de comunicação, de informação e de confecção da verdade nos dias de hoje, enquanto se discute a crise do livro.
O livro é uma invenção dos mosteiros medievais, com o seu espaço próprio de produção de cópias, o scriptorium («local para escrever»), tal como existiu no Mosteiro do Lorvão. O livro trazia uma nova arquitectura e suspensão do texto relativamente aos anteriores rolos (rotulus): menos a coluna da mancha de texto e mais a página com a mancha; menos o rolar do texto e mais a estabilidade da página. A página, organizada em fólios e em capítulos, permitia localizar o lugar da palavra e voltar a ela. Por outro lado, a estabilidade da página disponibilizava outra suspensão do olhar na escrita, mais visual que oral, que cativava o desejo de imagem a iluminar o texto. Daí esses diálogos criativos da página e do livro, da palavra e da imagem, coadjuvadas na iluminura medieval – e que interessam a Patrícia Magalhães.
Os mosteiros assumiam uma produção lenta na escrita do monge amanuense (derivado do latim ab manus, «à mão», relativo a manuscrever), da escrita ou sua cópia manual. A cópia dominava enquanto submissão à repetição da verdade obrigatória da palavra sagrada, do Verbo que prescrevia a escrita. O que se copiava era o texto do livro sagrado, o manuscrito original chamado exemplar. O dever era copiar o pré-escrito do exemplar num rigor que exigia a atenção e o foco do monge amanuense. O trabalho do copista era lento e atento e havia um pecado no desvio à palavra sagrada. Daí o curioso Titivillus, o diabinho das gralhas que assaltava os scriptoria para provocar os erros dos monges copistas. Titivillus sussurrava palavras erradas ao ouvido dos copistas, induzindo o erro e condenando a alma dos amanuenses ao inferno. Mas os próprios amanuenses se desculpavam com Titivillus: «Titivillus in culpa est» («a culpa é de Titivillus»). A escrita amanuense pedia a lentidão da inscrição que mobiliza corpo e espírito sem precipitações.
A modernidade libertou-nos da verdade sagrada e obrigatória, que nos era prévia, mergulhando-a na história, como uma construção de saber humano animada por um desejo de verdade e que articulamos com o tempo da imprensa e das dinâmicas da esfera pública. Mas na actualidade passámos, por excesso, para além dessa esfera. Estamos na época da pós-verdade, não só da morte da verdade obrigatória pré-moderna, mas também na perda de qualquer vontade de verdade. Depois de criticarmos a verdade absoluta e obrigatória, para ficarmos perante uma verdade estilhaçada, ainda animada por uma etapa de crítica e discussão iluminadas, passámos para um tempo da verdade humilhada, das fake news e das teorias da conspiração, fertilizada na torrente da doxa.
Ela contrapõe-se ao excesso contemporâneo, da velocidade de signos e imagens que ultrapassam o gesto e o olhar humano. Actualmente, o texto e a imagem, cuja relação animava a iluminura medieval, sucedem em quantidade numa panóplia vertiginosa de signos em cascata. Os novos ecrãs voltam a fazer rolar os signos ao sabor dos nossos dedos, como os rotulus ou volumen que dominaram na Antiguidade clássica, perdendo a pausa da página. Os textos e as imagens voltaram a ser territórios de aceleração, de puro fluxo, numa espécie de queda de signos, tanto na produção como na recepção. A exposição fala-nos desse curto-circuito.
Acompanhemos as séries que ritmam a exposição de Patrícia Magalhães. Um primeiro exercício, como preâmbulo deste ciclo criativo foi a concepção de um livro de artista, inspirado no Apocalipse do Lorvão, mas que joga com o seu imaginário iconográfico como fantasia enquanto lança reflexões pessoais em torno dos media contemporâneo e da pós-verdade, resultado das leituras e reflexões pessoais da artista. Uma guisa de diálogo com o Apocalipse do Lorvão, arrojando um ciclo criativo que se gradaria em várias séries.
A primeira série denominada Redes Sociais projecta a primeira metáfora crítica. São as páginas do Apocalipse do Lorvão, mas sem texto e sem imagem, depuradas da palavra e da iconografia até ficarem só como esqueleto gráfico na mera estrutura da cor de fundo. A artista apaga como num exercício de palimpsesto que retirou até ficar uma depuração minimal da estrutura cromática da página. É um movimento de abstracção visual da página, num acto demorado de apagamento como construção, para nos deixar um resto, o que fica do processo de rarefacção dos signos. E o que fica pode funcionar como metáfora de um lugar indialéctico, que já não deixa mover o contrabando do fluxo de signos, uma resistência perante a superfluidade do excesso de comunicação das mediações contemporâneas. No tempo da pós-verdade reivindica-se um direito de recusa de estímulos de recepção.
A série Imprensa, inverte esta lógica dando atenção à cópia da figuração do Apocalipse do Lorvão. Contudo, o fazer é imediato, alla prima, sem cálculo, uma espécie de croquis em carvão que olham para as figurações num olhar instantâneo, sem demora na cópia, entre a precipitação e o descuido do traço. A cópia feita sem espera nem contemplação. Automatismo em cópia figurativa.
Seguem-se os objectos da série Capitulares e Marginália. É um jogo com as letras capitulares ou initiums que normalmente ocupam várias linhas ou mesmo uma página inteira, com profusão decorativa, por vezes iconográfica, e que assumem fortes cargas simbólicas nos textos sagrados. Mas aqui o signo das inscrições do Apocalipse do Lorvão é isolado, como que fragmentado, descontextualizado e objectualizado. O fragmento escapa assim ao código da escrita, deixando de estar ao serviço do Verbo para se emancipar como corpo físico, desafiando a sua sobrevivência fora da página do texto sagrado.
Na mesma sala apresentam-se Dados pessoais, que consiste em três livrinhos de pequenas dimensões, efectuados a partir de antigas listas telefónicas, cortados à guilhotina. O efeito brinca entre a mini agenda ou um mini Livro de Horas. Como capa têm uma cópia fotografada da encadernação do Apocalipse do Lorvão, além de incluir páginas com cópias miniaturas das páginas iluminadas que se vão intercalando entre os fragmentos com dados pessoais da lista telefónica, de privados ou empresas. A apresentação dos dados pessoais contrapõe ao paradoxal controle contemporâneo dos dados pessoais na esfera pública da rede digital. Tal como vivemos entre o excesso de informação da rede e a ignorância privada, ou entre a partilha da rede e a solidão pessoal, como se vivêssemos uma época de um bizarro curto-circuito entre as esferas privadas e públicas, sem espaços de mediação e onde o privado pode ser exposto à exposição global num clique. A passagem entre os extremos da privacidade e do público vivem à beira de um clique tão instantâneo como global. Por outro lado, a proibição de informações na esfera publica escondem, sobre reserva de uma pretensa protecção privada, o que devia ser transparente na esfera pública, chegando a inibir o controle da corrupção, enquanto informações e opiniões privadas invadem a esfera pública. Além disso, o rasto da vida privada, como o nosso consumo, ou as nossas pesquisas e consultas na rede, etc, ficam em lugares e controles da nossa vida, que nos escapam. A nossa vida privada deixa um rasto na vigilância digital, para além da vigilância óptica, enquanto a esfera pública encobre a grande corrupção, para perdemos a sua visibilidade e controle.
Seguem-se os acidentes da série Fait divers. De novo a ampliação, mas de marcas, rasgões, borrões, cozeduras, etc., visíveis como marcas do tempo nas páginas do Apocalipse do Lorvão, que se isolam e destacam. Não é o texto nem a imagem que se foca, mas o acidente. É o acidente da história do livro que se torna a agenda visual (remetendo ao título da série) como metáfora dos temas desviantes que evitam as grandes questões, do escândalo que cria uma agenda inútil que nos confunde da vontade de verdade. É a verdade fora do texto sagrado, como mero acidente. E o médium como corpo tornado visível através do sublinhado dos seus acidentes de marcas de tempo.
Entra em eficaz sequência a série Propaganda. Aqui as iluminuras do Apocalipse são retomadas numa cópia deformada. São ampliadas, invertidas, esticadas, deformadas, etc. É a metáfora da propaganda através da qual: a cópia do real sofre a deformação ideológica. Mas também nos serve para a actual neo-propaganda: não dos signos fiscalizados, mas dos signos acumulados, típico da era do simulacro, do excesso e aceleração de signos da actualidade. Estamos numa época em que a cópia apresenta um real através da mimesis total em tempo real, com mais signo de transparência do real que a própria realidade, que é bem mais opaca. Portanto, há mais que uma mera deformação da realidade. O que se devolve nesse excesso é um substituto, o hiper-real, segundo a teoria do simulacro de Jean Baudrillard, que, consideramos, está para além da própria realidade que chega tarde demais para ser prova de real. O atrito da realidade fica excluído da produção de um real oferecido na pura transparência dos signos que assim produz real sem incómodo da espessura da realidade. O simulacro total é um autêntico produtor semântico na era da pós-verdade.
Outra marca desta série é a ausência de texto, mas que quase esquecemos animados na própria profusão da imagem. Por outro lado, esta série assume a interferência sobre a iconografia de tiras rasgadas de papel azul. Esta cor não existe no Apocalipse do Lorvão por ser rara e cara na época da sua produção. Mas as iluminuras, e essa é uma capacidade das camadas de cor de goma do imaginário medieval, parecem sempre ser mais policromáticas do que são, pela calculada composição dos contrastes de cores. Nos livros do Lorvão mal reparamos nessa ausência do azul.
Mas se os signos que ilustram o nosso real já não emergem a partir da realidade concreta, de onde surgem eles? A resposta pode estar apontada no fechamento, algo recôndito, com a instalação Manipulação (TV e Rádio). A manipulação é parodiada através da estratégia da marioneta. Os signos não surgem de baixo, a partir da realidade e dos acontecimentos, mas de cima, pairando sobre nós enquanto se animam como um mobile.
Numa edícula perto das salas da exposição, funcionando como uma espécie de antecâmara, Patrícia Magalhães concebeu uma obra que tanto pode ser vista à entrada como à saída da exposição, a instalação Fragmento, criada para esta exposição e que se organiza em duas partes: 1) Uma exibe uma intervenção no Foral de Faro, cujo frontispício original sofreu um acidente, tendo sido recortado e desaparecido a parte do brasão com as Armas Reais. A artista fez uma pesquisa de forais da mesma época e simulou um fragmento. Esta simulação foi uma reconstrução imaginária, mas documentada, e com aproximação aos materiais da época, com papel pergaminho e temperas de ovo (já usada na série Redes Sociais). É uma simulação que fabrica a segunda parte. 2) Esta constitui uma notícia falsa, uma fake news, simulando a reconstrução gráfica de um jornal com a notícia da descoberta do fragmento do Foral, criando uma narrativa com enredo criminal. A obra faz assim uma sátira à construção de uma fake news (que se deseja publicar no dia 1 de Abril). A vontade de recuperar o que falta do Foral de Faro abre o perigo da credulidade à aceitação da notícia falsa.
Esta obra artística coloca-se, assim, num instável lugar deontológico. Contudo, ela não é só desculpável, como admissível a partir do campo da arte: aqui a mentira autodenuncia-se enquanto desafia o perigo dos simulacros de verdade. É uma simulação retórica que denuncia o perigo da era do simulacro. Enquanto obra artística, de fantasia e paródia, ela exibe a própria facilidade da simulação e logro. O contexto artístico e expositivo faz um reflexo de espelho das próprias ilusões, servindo de modo de denúncia mais alargada à crise das mediações contemporâneas. As autoestradas de mediação contemporâneas estão saturadas com a circulação de signos. Através delas facilita-se a propensão para confiarmos em fake news e em perseguirmos teorias da conspiração. Temos agora que denunciar o uso fictício dos signos, de saber arrancar as camadas desse uso na construção artificial de significação, como se fosse a derradeira hipótese de recuperarmos um resto de realidade, um mero resíduo de sobrevivência que possa ainda servir de possibilidade de prova de real.
A actual época da pós-verdade não é um tempo de carência de signos. Pelo contrário, é na velocidade e saturação que os signos melhor escapam tanto a um desejo de verdade como a um princípio de objectividade, para se moverem nesse encanto de credulidades que é o carrossel da pós-verdade. Atrás de cada signo, de imagem ou texto, de parangonas ou emojis, há apenas outros signos que evitam que sejamos devolvidos a um princípio de realidade. Estas séries em exposição concatenam uma sátira a este tempo em que o simulacro parece ter vencido, sustentado através da própria saciedade de signos o seu desapego com a verdade e realidade. No tempo do livro do Apocalipse do Lorvão o texto e a imagem eram raros e cativavam a nossa atenção. Hoje circulam num desfile sem fim que cada vez menos parece passar pela prova da realidade ou através de uma intenção de verdade. O paradoxo, e esse poderá ser um dos alertas deste ciclo de obras, é que o livro existe, até em quantidade, mas já não vivemos a temporalidade do uso do livro. Esta exposição lida com campos visuais que se estendem como página ou como pinturas (ou desenhos), onde o nosso olhar se pode suspender e vagar. Não se trata de uma exposição que procure conceber novas imagens, antes manipula um imaginário reconhecível do românico português através de diferentes atitudes artísticas, utilizando-as como parábolas críticas ao actual mundo de celeridade da mediação. Que a sátira sirva de obstrução a essa avalanche de signos desorientados no tempo da pós-Verdade, onde a verdade deixou de ser verificável na própria amálgama de signos e mediações.
«É um princípio de simulação que doravante nos rege, em vez do antigo princípio da realidade» (Jean Baudrillard)
«O meio digital consuma essa inversão icónica que faz que as imagens pareçam mais vivas, mais belas, melhores do que na realidade, percebida esta última como deficiente» (Byung-Chul Han)
«Não devemos deixar que o reflexo substitua a reflexão. Devemos dar-nos tempo para refletir, tempo para amar» (Paul Virilio)
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This exhibition unfolds from a parodic gloss on the Apocalypse of Lorvão (1189), a renowned Romanesque manuscript through which the artist, across several series, reflects on the contemporary saturation of
media and signs characteristic of the so-called “post-truth” condition.
'Social Media' consists of a prolonged act of erasure or abstract construction of pages from the Apocalypse of Lorvão. 'Press' brings together automatic sketches that capture figures from the Lorvão manuscript, parodying contemporary speeds of circulation and consumption. 'Capitals and Marginalia' are exercises in the physical embodiment of the inscription of the manuscript's initials. 'Personal Data' comprises small booklets made from old telephone directories, playing with the tension between the public and the private. 'Fait Divers' enlarges accidents and blemishes from the pages, read as signs and traces of time. 'Propaganda' presents distorted copies of the Lorvão manuscript, evoking deformations of reality and fact. The installation 'Manipulation (TV and Radio)', with suspended elements handled like marionettes, and 'Fragment', a fake news piece simulating the rediscovery of a lost fragment of the Foral de Faro and its media coverage, complete the ensemble. Together, these series articulate a satire of a time in which Truth has ceased to be verifiable, lost within the very amalgam of signs and mediations that claim to represent it.
2025 - Lisbon Edition: novo número da Ever_Emerging_Magazine / A new issue of ee.mag : Lisbon Edition
Marguerite Nolan & Amanda Triano.
Patrícia Magalhães (Luanda, Angola, 1966) vive e trabalha em Lisboa. Estudou desenho e pintura na Universidade de Belas Artes de Lisboa e no ArCo - Centro de Arte e Comunicação Visual. Como artista visual multidisciplinar, o seu trabalho abrange desenho, pintura, gravura, instalação e fotografia. No intrincado mundo da sua arte, as formas orgânicas emergem como condutos para profundas explorações do tempo, da vida e da morte.
Refletindo sobre a sua jornada criativa, partilha ideias sobre o seu processo, filosofia e a interação entre a sua arte e a vibrante cidade de Lisboa. A sua odisseia criativa começou em meio às paisagens acidentadas da Córsega em 2015, evoluindo para a cativante série 'Filitosa', que foi o centro das atenções na sua última exposição no Museu Geológico, em Lisboa. "Já faz algum tempo que comecei a trabalhar com formas orgânicas como uma analogia de algo que tem sido o tema principal de (quase) todo o meu trabalho: Tempo, Vida e Morte", explica Magalhães.
"O meu trabalho, que se foca em formas orgânicas, é feito em séries que recebem o nome dos lugares onde capturo as referências iniciais. Ao mergulhar nessas paisagens, uma espécie de simbiose acontece entre o que é tangível e o que não é..." O seu processo criativo é uma dança delicada entre manipulação digital e intervenção manual. "Começo por tirar fotos de formas e texturas orgânicas em ambientes naturais", explica. "Em seguida, trabalho essas imagens digitalmente, aproximando-as das imagens que surgiram na minha mente. Finalmente, desenho sobre elas adicionando camadas de complexidade." E acrescenta: "É um processo intrincado e minucioso. Nunca edito as fotografias imediatamente a seguir a capturá-las; preciso sempre de alguma distância temporal para 'digerir' mentalmente todos os estímulos", diz. "Durante essa fase, a narrativa de cada série é definida. Quando finalmente passo a manipular as imagens digitalmente, procuro enquadramentos que tenham as características da narrativa em que pensei."
No seu 'statement' artístico, Magalhães aprofunda-se nos fundamentos filosóficos de sua obra. "Não me interessa representar o que pode ser observado a olho nu, mas sim libertar as forças invisíveis da natureza, as vibrações dos meus pensamentos." Essa filosofia infunde as suas criações com uma ressonância atemporal, convidando o espectador a contemplar os mistérios mais profundos da existência. O conceito de 'duração' é central em sua obra, sendo mesmo uma referência. Ela explica: "O termo 'duração' a que me refiro remete para o conceito de 'la Durée' de Henri Bergson, no qual ele defendeu a ideia de que o Futuro e o Presente simplesmente não existem, que há apenas o Passado. No Tempo, somos, a cada instante, o resultado das nossas experiências passadas."
Esta ideia molda a sua abordagem, combinando o visível com o intangível, capturando momentos que incorporam os seus pensamentos, emoções e sensações. Apesar das suas aventuras globais, Lisboa permanece o coração pulsante da jornada artística de Magalhães. "Nasci em África, mas vim para Portugal ainda muito jovem", reflete. "Estudei e vivi em Lisboa durante a maior parte da minha vida. Foi aqui que desenvolvi a minha prática e que encontrei a minha voz artística." A luz singular da cidade, o delta do rio e as dicotomias culturais influenciam profundamente o seu trabalho. "Lisboa é também a cidade que escolhi para viver e onde tenho meu ateliê, onde adoro trabalhar."
A transição para a dedicação à sua prática artística a tempo integral apresentou alguns desafios. "Temos que fazer escolhas e, às vezes, não é fácil. Eu sempre soube que era isto que eu queria fazer", relembra. "Depois de muitos anos a trabalhar das 9h às 5h, decidi em termos profissionais dedicar-me apenas à minha prática artística. Foi difícil (e ainda é), mas nunca me arrependi."
Magalhães costuma trabalhar em várias séries simultaneamente, cada uma com seus próprios materiais e técnicas. "No meu processo criativo, há uma primeira fase em que exploro vários temas e decido em quais é que vou trabalhar, e só depois começo aprofundo a investigação", explica. "Como as decisões que vou tomando se fazem em função dos resultados das pesquisas e das referências que vão surgindo e do próprio assunto, a forma que cada obra assume resulta frequenteente diferente em cada série."
Olhando para o futuro, Magalhães mantém o compromisso pessoal de expandir os limites da sua criatividade. "Em termos de carreira, o meu objetivo é simplesmente continuar a fazer o que gosto, que é fazer interpretações visuais dos assuntos que me interessam e, de alguma forma, tentar que o meu trabalho estimule a reflexão em outros." Tem como aspiração o continuar envolvida em iniciativas colaborativas e o aprender e experimentar continuamente novas formas de expressão visual.
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Patrícia Magalhães (Luanda, Angola, 1966) lives and works in Lisbon. She studied drawing and painting at the Lisbon University of Fine Arts and at ArCo - Center for Art & Visual Communication. As a multidisciplinary visual artist, her work spans drawing, painting, etching, installation, and photography. In the intricate world of her art, organic shapes emerge as conduits for profound explorations of time, life, and death. Reflecting on her creative journey, she shares insights into her process, philosophy and the interplay between her art and the vibrant city of Lisbon. Her creative odyssey began amidst the rugged landscapes of Corsica in 2015, evolving into the captivating 'Filitosa' series, which took center stage at her last exhibition at Museu Geológico, in Lisbon. "It's been a while now since I began working around organic shapes as an analogy of something else that has been the main subject of (almost) all of my work: Time, Life, and Death," Magalhães explains.
"My work, which focuses on organic forms, is made in series that take their name from the places where I capture the initial references. As I immerse myself in these landscapes, a kind of symbiosis takes place between what is tangible and what is not..." Her creative process is a delicate dance between digital manipulation and manual intervention. "I start by taking photographs of organic shapes and textures in natural settings," she explains. "Then, I thoroughly work these pictures digitally, bringing them closer to the images that came to life in my head. Finally, I draw on them manually, adding layers of complexity." And she adds:" It's an intricate and thorough process. I never edit the photographs straight away, I always need a few days to mentally 'digest' all the stimuli," she says. "During this phase, the narrative of each series is defined. When I finally move on to digitally manipulate the images, I look for frames that have the characteristics of the narrative outlined in my mind."
In her art statement, Magalhães delves into the philosophical underpinnings of her work. "I'm not interested in representing what can be observed with the naked eye, but I want to release the invisible forces of nature, the vibrations of my thoughts."
This ethos infuses her creation with a timeless resonance, inviting you to contemplate the deeper mysteries of existence. The concept of 'duration' is central to her work, is a referral. She explains, "The term 'duration' in my statement refers to Henri Bergson's concept of 'la Durée' in which he defended the idea that the Future and the Present simply don't exist, that there is only the Past. In Time we are, at every moment, the result of our past experiences." This idea shapes her approach, combining the visible with the intangible, capturing moments that embody her thoughts, emotions, and sensations. Despite her global adventures, Lisbon remains the beating heart of Magalhães' artistic journey. "I was born in Africa but came to Portugal quite young," she reflects. "I've studied and lived in Lisbon for most of my life. It's where I developed my craft and found my artistic voice." Lisbon's unique light, river delta, and cultural dichotomies deeply influence her work. "Lisbon is also the city in which I choose to live and where I have my studio where I love to work."
Transitioning to full-time dedication to her artistic practice presented challenges. "We have to make choices and sometimes it's not easy. I always knew that this was what I wanted to do full-time," she recalls. "After many years working 9 to 5, I decided to devote myself fully to my artistic practice. It was hard (still is) but I've never regretted it." Magalhães often works on multiple series simultaneously, each with its own materials and techniques. "In my creative process, there is a first phase in which I explore various subjects and decide which ones I'm going to work on, and then I start researching," she explains. "As the decisions are made according to the relationship with the research, the references, and the subject of the work, they can be different in each series."
Looking ahead, Magalhães remains committed to pushing the boundaries of her creativity. "In terms of my career, my goal is simply to continue doing what I love, which is to produce visual interpretations of the subjects that interest me and, in some
way, try to provoke reflection in others with my work." She aspires to remain involved in collaborative initiatives and continually learn and experiment with new forms of visual expression.
created by Marguerite Nolan
curated by Amanda Triano
Lisbon edition featured artists:
2024 - "Pós-Verdade" / "Post-Truth"
Filipa Oliveira.
"Sabemos que a linha que separa factos e ficção é cada vez mais ténue. O conceito de "pós-verdade" defende que a subjetividade e as convicções pessoais frequentemente se sobrepõem à realidade objetiva. Pós-verdade não defende a inexistência da 'verdade', propõe antes que esta é secundária ou irrelevante nas estratégias (políticas e dos media) de poder. O projecto de Patrícia Magalhães explora e reflete sobre esta ideia de construção da verdade, questionando se a verdade é uma impossibilidade, e se existe apenas enquanto perspectivas e interpretações pessoais. A arte é exatamente o lugar onde é possível desmascarar e questionar o conceito de verdade, e ao fazê-lo abrir novas possibilidades de compreensão do mundo e de releituras do passado. Ao destabilizar o que outrora se considerava inequivocamente como "verdade", a arte actua como uma fresta que se abre e encoraja o pensamento crítico despertando uma nova compreensão e visão do mundo.
Nesta exposição, Patrícia Magalhães trabalha sobre um manuscrito iluminado datado de 1189 intitulado "Comentário ao Apocalipse de Lorvão". Este livro, contemporâneo da fundação de Portugal (1143) é considerado a materialização da passagem do Mundo Antigo para o Medieval. Magalhães associa esta transição com a era contemporânea, na qual uma nova transição, uma nova rutura, está em curso. Se na época do "Comentário ao Apocalipse de Lorvão" a ideia de verdade era inquestionável (era divina), hoje a 'verdade' é questionada e manipulada diariamente, à vista de todos.
Transversal a todas as épocas, a ideia de verdade é sempre invariavelmente associada a narrativas de poder.
Numa prática marcada pela pesquisa e investigação, Patrícia Magalhães redesenha as iluminuras do "Comentário ao Apocalipse de Lorvão", retirando-lhes toda a figuração e mantendo apenas os arranjos gráficos (o fundo). Sobre esta abstração, Magalhães sugere que novos códigos, novas construções sobre a realidade, possam ser escritos e imaginados.
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"We know that the line separating fact and fiction is increasingly blurred. The concept of "post-truth" argues that subjectivity and personal convictions often override objective reality. Post-truth does not advocate the non-existence of 'truth,' but rather proposes that it is secondary or irrelevant in (political and media) power strategies. Patrícia Magalhães' project explores and reflects on this idea of the construction of truth, questioning whether truth is an impossibility, and whether it exists only as personal perspectives and interpretations. Art is precisely the place where it is possible to unmask and question the concept of truth, and in doing so, open new possibilities for understanding the world and reinterpreting the past. By destabilizing what was once unequivocally considered "truth," art acts as a crack that opens and encourages critical thinking, awakening a new understanding and vision of the world."
In this exhibition, Patrícia Magalhães works with an illuminated manuscript dated 1189 entitled "Commentary on the Lorvão Apocalypse." This book, contemporary with the founding of Portugal (1143), is considered the materialization of the transition from the Ancient World to the Medieval World. Magalhães associates this transition with the contemporary era, in which a new transition, a new rupture, is underway. If at the time of the "Commentary on the Lorvão Apocalypse" the idea of truth was unquestionable (it was divine), today 'truth' is questioned and manipulated daily, in plain sight.
Transversal to all eras, the idea of truth is always invariably associated with narratives of power.
In a practice marked by research and investigation, Patrícia Magalhães redesigns the illuminations of the "Commentary on the Apocalypse of Lorvão," removing all figuration and maintaining only the graphic arrangements (the background). Regarding this abstraction, Magalhães suggests that new codes, new constructions about reality, can be written and imagined.
Filipa Olivieira
Curadora e Programadora de Artes Visuais da Câmara Municipal de Almada e Direcção artística da Casa da Cerca, Galeria Municipal de Almada e Convento dos Capuchos / Curator and Programmer of Visual Arts for the Almada City Council and Artistic Director of Casa da Cerca, Almada Municipal Gallery and Capuchos Convent.
2024 - por ocasião da exposição "Pós-Verdade" no Convento dos Capuchos / on the occasion of the exhibition "Post-Truth"at Convento dos Capuchos.
2024 - "Crer para Ver" / "Believe to See"
Ricardo Castro Ferreira.
“Acredito que a arte é a única forma de atividade em que o ser humano, enquanto humano, se manifesta como um verdadeiro indivíduo e consegue ultrapassar o estádio animal, porque a arte é um território que abarca regiões que não são governadas pelo espaço e pelo tempo. Viver é crer.” Marcel Duchamp
A exposição Crer para Ver, de Patrícia Magalhães, tem como matéria fundadora o tempo e as respetivas metamorfoses. Na sua diversidade, as obras que a compõem começam por ativar nos espectadores um sentido participativo e lúdico na descoberta do território visual da artista, gradualmente convidando-os a uma atitude mais contemplativa, numa viagem pelo eixo cristalográfico da memória.
Esta polaridade é, também, constitutiva do corpo de trabalho que aqui se apresenta, oscilando entre o peso e a leveza, a solidez e a fragilidade, o uno e o múltiplo, o masculino e o feminino, o Yin e o Yang, a anima e o animus, o visível e o invisível, num todo que reflete as antinomias do humano e propõe uma visão subtil da realidade, na qual os extremos, ou os opostos, se tocam e atraem. Nesse sentido, Patrícia Magalhães entrega-se, nesta exposição, a um exercício de recombinação de arquétipos, que são (re)projetados no nosso imaginário, através de uma variedade de propostas visuais verdadeiramente interpelantes.
Composta por trabalhos tão díspares como desenhos, objetos ou instalações, a evidente diversidade formal conflui num gesto essencial, em que o invisível é tornado visível, uma alquimia propiciada pela apresentação de obras dotadas ora de um simbolismo fecundo, ora de sentidos mais enigmáticos. Por isso, há no âmago desta exposição um profundo impulso espiritual, onde se procura, de modo mais ou menos oblíquo, numa viagem por múltiplas formas reveladoras de grande maturidade e singularidade da artista, a manifestação da essência do ser humano na sua efemeridade, mas também no seu desejo de infinito.
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“I believe that art is the only form of activity in which the human being, as a human being, manifests himself as a true individual and manages to transcend the animal stage, because art is a territory that encompasses regions not governed by space and time. To live is to believe.” Marcel Duchamp
The exhibition "Believe to See", by Patrícia Magalhães, has as its founding subject time and its respective metamorphoses. In their diversity, the works that compose it begin by activating in the viewers a participatory and playful sense in the discovery of the artist's visual territory, gradually inviting them to a more contemplative attitude, in a journey through the crystallographic axis of memory.
This polarity is also constitutive of the body of work presented here, oscillating between weight and lightness, solidity and fragility, the one and the many, the masculine and the feminine, Yin and Yang, anima and animus, the visible and the invisible, in a whole that reflects the antinomies of the human and proposes a subtle vision of reality, in which extremes, or opposites, touch and attract each other. In this sense, Patrícia Magalhães engages, in this exhibition, in an exercise of recombining archetypes, which are (re)projected into our imagination through a variety of truly engaging visual proposals.
Composed of works as disparate as drawings, objects, and installations, the evident formal diversity converges in an essential gesture, in which the invisible is made visible—an alchemy facilitated by the presentation of works endowed sometimes with a fertile symbolism, sometimes with more enigmatic meanings. Therefore, at the heart of this exhibition lies a profound spiritual impulse, where, in a more or less oblique way, a journey through multiple forms revealing the artist's great maturity and singularity seeks to manifest the essence of the human being in its ephemerality, but also in its desire for the infinite.
Ricardo Castro Ferreira
Integra a 'Miguel Castro - Art Advisor', projeto editorial e curatorial / He is part of 'Miguel Castro - Art Advisor', an editorial and curatorial project. (https://www.instagram.com/miguelcastro_artadvisor/)
2024 - por ocasião da exposição "Crer para Ver" na Casa da Cultura de Elvas / on the occasion of the exhibition "Believe to See" at Casa da Cultura de Elvas.
2022 - "Persistir no existir da Obra"
Pedro Miguel Arrifano.
Existem duas maneiras de abordar a materialidade do mundo/das coisas. Rodeando-as ou entrando nelas. Patrícia Magalhães escolhe entrar nas coisas, opta por penetrar na duração da matéria e não conhecê-la propriamente. Desta forma, faz voltar a consciência para a duração interior do “eu profundo”, esse lugar onde cada facto interpenetra outro facto. Nesta sua exposição “distensão da alma”, a artista procura a realidade das coisas fora do que se move, muda e fora dos nossos sentidos e do que a consciência percebe. A realidade que lhe interessa é a movente e a memória que visa é a persistente. Em ambas encontra a revelação, o intervalo, a duração…a diferença naquilo que se repete. No conjunto das suas obras podemos perceber uma estética da inexistência ou, de outra forma, uma estética do tempo reversível; contrária ao tempo que depende do movimento e em que o próprio ser do tempo é irreversível: tempo da degradação. Na realidade, Patrícia Magalhães quer libertar-se do tempo que caminha para a degradação e mergulhar num tempo-criação. Para haver tempo é necessário que haja movimento: blocos de espaço-tempo. Sempre que nós pensamos o tempo ― invariavelmente ― nós pensamos o tempo como sendo uma sucessão: alguma coisa que começa no passado; vem para o presente; e vai para o futuro. Sucessão é sinónimo de movimento. No plano da realidade quotidiana as dimensões do tempo passado, presente e futuro são muito fáceis de entender. Entendemos o tempo como se fosse uma sucessão. A sua passagem é regida pela lei da irreversibilidade, ou seja, sendo irreversível, ele só se movimenta para a frente. Deixa assim de haver retorno, quer dizer, o que foi não volta mais. O presente é sempre um "tempo-perdido", uma perda de nós próprios e dos que nos pertencem... A possibilidade que haveria de salvar este tempo que se perdeu é esgotada num momento anterior. O tempo trás consigo algo de ontologicamente sacrificial...de doloroso, numa dupla amplitude: como sofrimento do mundo e como intensificação da sua experiência.
Patrícia Magalhães ao aventurar-se num tempo-criação acaba por encontrar o seu problema/tema: se o tempo está intimamente ligado ao movimento, então libertar o tempo é vencer a degradação, entenda-se a morte (de si e da obra). O que a artista coloca nas suas obras são as vibrações do tempo e do pensamento: o tempo e o pensamento a vibrar. Não tem como questão representar aquilo que observa, mas libertar o invisível da natureza – e esse invisível são as forças do tempo e as forças do pensamento. Neste processo, o tempo vai perder a regularidade ao separar-se do movimento e libertar-se no sentido de ganhar pensamento. Para a artista pensar é sinónimo de conquista de tempo na arte e contrário ao senso-comum que vive na lógica da sucessão (repetição sem criação). É pois na Durée que o pensamento tem a possibilidade de se libertar do movimento. Nesse intervalo que se quer longo a criação e a obra de Patrícia sobressai. Nesse pequeno intervalo preenchido por afetos-memória/forças intemporais, a artista, mais do que tentar perceber o mundo, torna-se vidente, pois ao querer conhecer a duração das coisas, vai ver o que outros não vêem e assim tocar o fundo do tempo para nelas (coisas) entrar. Deste modo, ocorre um conjunto de obras que são pura memória actualizada, reinterpretação – subjectividade autentica…persistir no existir da memória feita em Obra. É, pois necessário organizar a nossa subjectividade pois todo aquele que tem o poder sobre o tempo torna a sua vida bela.
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There are two ways to approach the materiality of the world/things: by circling them or by entering into them. Patrícia Magalhães chooses to enter into things, opting to penetrate the duration of matter rather than properly knowing it. In this way, she turns consciousness back to the inner duration of the "deep self," that place where each fact interpenetrates another. In her exhibition "Distension of the Soul," the artist seeks the reality of things outside of what moves, changes, and beyond our senses and what consciousness perceives. The reality that interests her is the moving one, and the memory she aims for is the persistent one. In both, she finds revelation, interval, duration…the difference in what repeats itself. In her body of work, we can perceive an aesthetic of non-existence or, in other words, an aesthetic of reversible time; contrary to time that depends on movement and in which the very being of time is irreversible: the time of degradation. In reality, Patrícia Magalhães wants to free herself from time that moves towards degradation and immerse herself in a time-creation. For there to be time, there must be movement: blocks of space-time. Whenever we think of time—invariably—we think of time as a succession: something that begins in the past; comes to the present; and goes to the future. Succession is synonymous with movement. In the realm of everyday reality, the dimensions of past, present, and future time are very easy to understand. We understand time as if it were a succession. Its passage is governed by the law of irreversibility; that is, being irreversible, it only moves forward. Thus, there is no return; what has been is gone forever. The present is always "lost time," a loss of ourselves and those who belong to us... The possibility of saving this lost time is exhausted in a previous moment. Time carries with it something ontologically sacrificial... something painful, in a twofold sense: as the suffering of the world and as an intensification of its experience.
In venturing into a time-creation process, Patrícia Magalhães ends up finding her problem/theme: if time is intimately linked to movement, then liberating time is overcoming degradation, understood as death (of oneself and of the work). What the artist places in her works are the vibrations of time and thought: time and thought vibrating. Her aim is not to represent what she observes, but to liberate the invisible from nature – and this invisible force is the forces of time and the forces of thought. In this process, time loses its regularity by separating itself from movement and liberating itself in order to gain thought. For the artist, thinking is synonymous with conquering time in art and contrary to the common sense that lives in the logic of succession (repetition without creation). It is therefore in Duration that thought has the possibility of freeing itself from movement. In this interval, which is intended to be long, Patricia's creation and work stand out. In this small interval filled with affects—memory/timeless forces—the artist, more than trying to understand the world, becomes a seer, because in wanting to know the duration of things, she will see what others do not see and thus touch the bottom of time to enter into them (things). In this way, a set of works emerges that are pure updated memory, reinterpretation—authentic subjectivity…persisting in the existence of memory made into Work. It is therefore necessary to organize our subjectivity because whoever has power over time makes their life beautiful.
Pedro Miguel Arrifano
Doutorado em História da Arte Contemporânea e investigador do CHAM – NOVA FCSH. Licenciado e Mestre em Filosofia nas áreas específicas de ética, estética e religião / PhD in Contemporary Art History and researcher at CHAM – NOVA FCSH. Bachelor's and Master's degrees in Philosophy, specializing in ethics, aesthetics, and religion.
2022 - por ocasião da exposição "Distensão da Alma" no Espaço Cultural das Mercês / on the occasion of the exhibition "Distensão da Alma" at the Espaço Cultural das Mercês.
2022 - "Um, ninguém, e cem mil"
Miguel Meruje.
O ecletismo convocado pelas obras de Patrícia Magalhães que recebem os visitantes d’A BASE representa a súmula das diferentes abordagens que a artista tem explorado no seu percurso. A solidez do alfabeto que institui para construir estas palavras soltas - que são obras plenas de caráter - atesta a amplitude de recursos convidados , bem como a intensa fogueira criativa de onde crepitam estas fagulhas: desenhos, figuras, palavras, organismos do mundo animal, fotografias rasuradas, olhares mascarados e o excesso revertido em formas lineares. Há desenhos a espreitar, da mais orientada e objetiva lisura, até uma erosão das tiras que nos dão restos do processo central na pintura da artista; resto, para lá da erosão, a criação através do excedente, uma idílica perseguição das formas até ao limite. Lembrando, claro, que na arte, ainda não foi encontrado um limite, um fim necessário. Aquele que é o mistério da arte e que suscita interesse por ver e por criar, é uma fonte inesgotável e ininterrupta. Esta janela aberta para as guinadas estilísticas, numa rota de curvas e contra-curvas, permite o espectador ver - não so a variedade, mas também o processo de obras recentes; e portanto, terreno em que o solo ainda está convulso e a poeira a assentar. Quantas vão a partir daqui surgir? Uma, várias, mil? A arte trans-histórica, modela o mundo, e nestes tempos que apelidam de ‘fim’ - mas que nunca ocorre - mantém-se sagrada, perdura, como sempre sobreviveu aos escombros.
A escala cria, não apenas espaços expositivos inusitados como o topo das ombreiras, mas também importa a forma que existirá sempre, seja abstrata ou realista, definida pela proporção, ritmo, escala, textura, volume entre outros. A rugosidade da textura contrasta com a formalidade da linha recta nas tiras reaproveitadas, corolário da incessante vontade de explorar e viver em toda a extensão aquilo que é ser artista enquanto modelador de formas e criador de sensações. Por um lado, os desenhos de pequena escala suprem a necessidade de imediato que a atualidade tolda, por outro, quanto maior a dimensão física, mais distintas e profundas são as criações que Patrícia Magalhães revela. Isto conquista-se com a agudez (‘agudeza’) defendida por Baltasar Gracián em 1647, onde o máximo de significado está compactado no mínimo de forma ou estilo.
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The eclecticism evoked by Patrícia Magalhães' works that greet visitors at A BASE represents a summary of the different approaches the artist has explored throughout her career. The solidity of the alphabet she establishes to construct these loose words – which are works full of character – attests to the breadth of resources used, as well as the intense creative fire from which these sparks crackle: drawings, figures, words, organisms from the animal world, erased photographs, masked gazes, and excess reversed into linear forms. There are drawings peeking out, from the most oriented and objective smoothness, to an erosion of the strips that give us remnants of the central process in the artist's painting; remnants, beyond erosion, of creation through surplus, an idyllic pursuit of forms to the limit. Remembering, of course, that in art, a limit, a necessary end, has not yet been found. That which is the mystery of art and which arouses interest in seeing and creating, is an inexhaustible and uninterrupted source. This window, open to stylistic shifts, on a route of twists and turns, allows the viewer to see – not only the variety, but also the process of recent works; and therefore, terrain where the ground is still turbulent and the dust is settling. How many will emerge from here? One, several, a thousand? Transhistorical art shapes the world, and in these times that they call the ‘end’ – but which never occur – it remains sacred, it endures, as it has always survived the rubble.
Scale creates not only unusual exhibition spaces like the tops of door jambs, but also implies a form that will always exist, whether abstract or realistic, defined by proportion, rhythm, scale, texture, volume, and other factors. The roughness of the texture contrasts with the formality of the straight line in the repurposed strips, a corollary of the incessant desire to explore and fully experience what it means to be an artist as a shaper of forms and creator of sensations. On the one hand, small-scale drawings fulfill the immediate needs that current trends obscure; on the other hand, the larger the physical dimension, the more distinct and profound the creations that Patrícia Magalhães reveals. This is achieved with the sharpness advocated by Baltasar Gracián in 1647, where the maximum meaning is compacted into the minimum of form or style.
Miguel Meruje
Doutorado em História da Arte Contemporânea e investigador do CHAM – NOVA FCSH. Licenciado e Mestre em Filosofia nas áreas específicas de ética, estética e religião / PhD in Contemporary Art History and researcher at CHAM – NOVA FCSH. Bachelor's and Master's degrees in Philosophy, specializing in ethics, aesthetics, and religion.
2022 - por ocasião da exposição "Um, ninguém e cem mil" n'A BASE / on the occasion of the exhibition "One, a thousand, a hundred thousand" at A BASE.