2021-2026 - Pós-Verdade.
O neologismo, ‘pós-verdade’ é um termo que apareceu pela primeira vez em 1992 e que começou a ser utilizado, com cada vez maior frequência, para acompanhar o que estava a acontecer com o crescimento meteórico das redes sociais, a omnipresença de conteúdos propagados vinte e quatro horas por dia e a sua multiplicação em todos os media, vorazes a nível planetário. Para conseguir saciar tamanha sofreguidão é necessário gerar cada vez mais e mais conteúdos, continuamente, sem parar. E isso consegue-se à custa de um gradual desvalorizar do que antes se entendia por verdades objetivas. Aquilo que era comprovado por factos ou o que estava coletivamente estabelecido, promovendo-se como igualmente certo, e ao mesmo nível, tudo o que sejam opiniões e convicções pessoais, apelos emocionais, argumentos subjetivos e, até, falaciosos.
Quando iniciei a investigação para este trabalho, em 2021, estávamos em plena época pandémica e no auge de uma saturação de ‘verdades alternativas’ que então se afirmavam a nível global. Tomei então (ainda) mais consciência de que vivemos num tempo em que eruditos e cientistas têm a mesma credibilidade (mas menor mediatização) do que os comentadores, os influencers e gente mais ou menos anónima (ou que pretende manter-se anónima).
A minha interpretação sobre estas questões foi nascendo, paulatinamente, a partir de informação variada e com origem em diferentes referências. Aliás, a bibliografia a que acedi como investigação integra o Livro de Artista intitulado ‘Prólogo —‘Manuscrito iluminado’ onde, a par das minhas anotações, reproduzi excertos de textos de vários autores que fui consultando.
O corpo de trabalho que produzi entre 2022 e 2026 consiste num conjunto alargado de desenhos, pinturas, objetos e instalações, que comungam de uma narrativa visual que parte das iluminuras, textos e de outros elementos do “Comentário ao Apocalipse de Lorvão” (1189) (2), o que nos remete para uma época em que se vivia uma ‘crise de verdade’ diferente. As obras estão agrupadas em sete conjuntos (intitulados ’Capítulos’), cada um relacionando-se com um jargão editorial ou com determinado meio de comunicação, partilhando entre si uma uniformização formal (que é também uma crítica).
Há, adicionalmente, uma obra que criei especificamente para a exposição 'Sátiras da Pós-Verdade' no Museu Municipal de Faro (28-02 a 03-05-2026). Trata-se de uma instalação intitulada ‘Capítulo VIII - Fragmento’ que tem como referencial um códice diferente, o “Foral manuelino de Faro” (1504). Nela se juntam um desenho e uma ‘notícia falsa’ que se complementam para criar uma experiência que pretendo seja de (des)construção de uma ’fake news’ e que, em simultâneo, possa servir como mote para uma discussão pública mais ampla sobre estas temáticas.
Numa época de velocidade e de excessos, de banalização das imagens e das palavras que nos invadem a um ritmo frenético, de convivência e conivência com múltiplas verdades e diferentes interpretações dos mesmos factos, o que quis com este trabalho foi criar pausas onde possamos desacelerar, olhar para ver. Formar opinião. Nos dia de hoje, mais do que nunca, a verdade não vem pronta, ela exige tempo, atenção e capacidade para duvidar.
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The neologism, ‘post-truth’ first appeared in 1992 and began to be used with increasing frequency to describe what was happening with the meteoric growth of social networks, the omnipresence of content propagated twenty-four hours a day, and its multiplication across all media, voracious on a planetary level. To satisfy such an 'appetite', it is necessary to generate more and more content, continuously, without stopping. And this is achieved at the cost of a gradual devaluation of what was previously understood as objective truths. That which was proven by facts or what was collectively established, promoting as equally true, and on the same level, everything that constitutes personal opinions and convictions, emotional appeals, subjective and even fallacious arguments.
When I began the research for this work in 2021, we were in the midst of the pandemic and at the height of a saturation of 'alternative truths' that were then asserting themselves globally. I became (even) more aware then that we live in a time when scholars and scientists have the same credibility (but less media coverage) as commentators, influencers, and more or less anonymous people (or those who intend to remain anonymous).
My interpretation of these issues gradually emerged from varied information originating from different sources. In fact, the bibliography I accessed as research is part of the Artist's Book entitled 'Prologue — 'Illuminated Manuscript' where, alongside my notes, I reproduced excerpts from texts by various authors I consulted.
The body of work I produced between 2022 and 2026 consists of a wide range of drawings, paintings, objects and installations, which share a visual narrative that starts from the illuminations, texts and other elements of the codex “Commentary on the Lorvão Apocalypse” (1189), which takes us back to a time when a different kind of ‘crisis of truth’ was being experienced. The works are grouped into seven sets (entitled 'Chapters'), each relating to an editorial jargon or a specific means of communication, sharing a formal uniformity (which is also a critique).
Additionally, there is a work that I created specifically for the exhibition 'Satires of Post-Truth' at the Faro Municipal Museum (February 28 to May 3, 2026). It is an installation entitled 'Chapter VIII - Fragment' which uses a different codex as a reference, the "Manueline Charter of Faro" (1504). In it, a drawing and a 'fake news' are combined to complement each other to create an experience that I intend to be a (de)construction of 'fake news' and that, at the same time, can serve as a starting point for a broader public discussion on these topics.
In an era of speed and excess, of the banalization of images and words that invade us at a frenetic pace, of coexistence and complicity with multiple truths and different interpretations of the same facts, what I wanted with this work was to create pauses where we can slow down, look to see. Form an opinion. Today, more than ever, the truth doesn't come ready-made; it requires time, attention, and the ability to doubt.
Capítulo 8 - Fragmento, 2025-2026
Instalação: 1 desenho - chá preto e têmpera de ovo sobre papel-pergaminho + 2 notícias - textos fake-news em layout de jornal fictício /
Installation: 1 drawing - black tea and egg tempera on parchment paper + 2 news items - fake news texts in a fictional newspaper layout.
dimensões variáveis / variable dimensions
Capítulo 7 - Radio e Tv, 2025-206
instalação - madeira, tinta acrílica, fio de nylon e ferragens / Installation - wood, acrylic paint, nylon thread and hardware
dimensões variáveis / variable dimensions
Capítulo 6 - Dados Pessoais, 2022-2026
3 livrinhos - colagem de fotocópias sobre antiga lista telefónica cortada / 3 small books - collage of photocopies on an old, torn telephone directory.
medidas variáveis / variable dimensions
Capítulo 5 - Fait-divers, 2022-2023
7 desenhos - tinta acrílica e tinta-da-china sobre papel Canson 200 g/m2 / 7 drawings - acrylic paint and India ink on Canson 200 g/m2 paper
59,4 x 42 cm
(+ moldura / frame)
Capítulo 4 - Capitulares e Marginália, 2023-2026
10 objetos - xps, mdf, papel maché, tinta acrílica e ferragens e magnetes / 10 objecys - xps, mdf, papier-mâché, acrylic paint, hardware and magnets.
dimensões variáveis / variable dimensions
Capítulo 3 - Propaganda, 2022-2023
7 desenhos - tinta acrílica, carvão e tinta-da-china sobre papel 265 g/m² Hahnemühle 90% fibras de bambu e 10% algodão / 7 drawings - acrylic paint, charcoal, and India ink on 265 g/m² Hahnemühle paper, 90% bamboo fibers and 10% cotton.
125 x 85 cm
Capítulo 2 - Imprensa, 2022
4 desenhos - tinta acrílica e carvão sobre papel Canson 200 g/m2 / 4 drawings - acrylic paint and charcoal on Canson 200 g/m2 paper
42 x 29,7 cm
(+ moldura / frame)
Capítulo 1 - Redes Sociais, 2022
16 pinturas - têmpera de ovo, tinta acrílica, grafite, carvão, tinta da china sobre platex / 16 paintings - egg tempera, acrylic paint, graphite, charcoal, India ink, on platex.
60,5 x 39,7
(com moldura)
2024 - A Obra ao Negro.
Desenvolvi este corpo de trabalho como uma reflexão sobre a nossa natureza transitória e o efémero da nossa passagem por este mundo. Escolhi fazê-lo com uma abordagem que explora a dualidade das estruturas que nos suportam — por um lado a construção física (de ossos, orgãos e músculos) e, por outro, o lado espiritual (de emoções, pensamentos e raciocínio) — em trabalhos que são metáforas nítidas que nos confrontam com essa questão da nossa impermanência, em que trabalhei a forma como as estruturas, de que cada um de nós é feito, interagem e se relacionam entre elas, como é que, nesses dois níveis de complexas camadas que sustentam a nossa existência, nós percebemos a vida e a morte. A nossa e a dos outros.Somos os alquimistas das nossas vidas. Trabalhamos com os materiais e as ferramentas que temos disponíveis, que são o nosso corpo físico e a nossa mente. Os trabalhos são reflexões sobre o ponto de equilíbrio entre a nossa força e a fragilidade, entre a luz e a sombra que somos.
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I developed this body of work as a reflection on our transient nature and the ephemeral nature of our passage through this world. I chose to do so with an approach that explores the duality of the structures that support us — on the one hand, the physical construction (of bones, organs, and muscles) and, on the other, the spiritual side (of emotions, thoughts, and reasoning) — in works that are clear metaphors that confront us with this question of our impermanence, in which I worked on how the structures that each of us is made of interact and relate to each other, how, in these two levels of complex layers that sustain our existence, we perceive life and death. Our own and that of others. We are the alchemists of our lives. We work with the materials and tools we have available, which are our physical body and our mind. The works are reflections on the balance between our strength and fragility, between the light and shadow that we are.
Esfera de Campanus (da série A Obra ao Negro), 2024
(protótipo / prototype)
radiografias, cartolina cola e ferragens / x-rays, cardboard, glue, screwss and fittings. ø165 cm
Quantos-queres (da série A Obra ao Negro), 2024
clica na imagem / click on pic
21 Origamis universais com desenhos; pastel de óleo sobre papel radiográfico com exames impressos. Dimensões variáveis / 21 universal origami with drawings; oil pastel on radiographic paper with printed examinations. Variable dimensions.
Árvore da Vida (da série A Obra ao Negro), 2024
mamografias, acetatos, cola e mdf / mammograms, acetates, glue and mdf. 176 x 100 cm
Sem título (da série A Obra ao Negro), 2024
tinta acrílica sobre papel com monotipias de transferência de impressão de radiografias / acrylic ink on paper over radiographic prinr transfer monotypes. 29,7 x 42 cm
2024 - Distensão da Alma
“A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente.” A frase é atribuída a Albert Einstein e ele referia-se, é claro, ao Tempo físico, quantificável e mensurável, e não ao Tempo intangível e filosófico, percebido como o campo das nossas vivências. Henri Bergson, contemporâneo de Einstein, defendia uma ideia completamente diferente, em que o futuro e o presente não existem, em que só há o passado. E em que somos, a cada momento, o resultado das vivências passadas. Se assim for, então é indissociável pensarmos na enorme plasticidade da Memória. A tal que nos prega partidas, que umas vezes esconde e outras revela, que sobrepõe, mistura e chega mesmo a alterar as recordações que guardámos. Como se fossemos feitos de múltiplos planos que se sobrepõem, em que as impressões do que sentimos se intercalam e se vão modelando com o passar do Tempo e que dependem do estado emocional em que as evocamos Justapor cinquenta e um desenhos e duas instalações que evocam noções tão distintas sobre o mesmo assunto não é inocente. Não é uma competição entre teorias de diferentes correntes de pensamento porque, há luz desta exposição, todas são verdadeiras, mesmo que se contradigam. Todas são verdadeiras, exatamente porque todas coexistem no Tempo. O fascínio por estas matérias foi o fio condutor para as interpretações plásticas em que trabalhei nos últimos meses e que resultaram na seleção de trabalhos que agora exponho com o intuito, talvez um pouco provocatório, de nos tocar no ombro, mesmo que ao de leve, pedindo uma reflexão que perdure para lá da visita à exposição, que saia connosco e nos deixe a pensar… Afinal o que significa, para cada um de nós, isso do Tempo e da Memória?.
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“The distinction between past, present and future is only a stubbornly persistent illusion.” The phrase is attributed to Albert Einstein and he was referring, of course, to physical, quantifiable and measurable Time, and not to intangible and philosophical Time, perceived as the field of our experiences. However, Henri Bergson, Einstein's contemporary, defended a completely different idea, in which the future and the present do not exist, in which there is only the past. And in which we are, at every moment, the result of past experiences. If this is the case, then it is inseparable to think about the enormous plasticity of Memory. The kind that plays tricks on us, sometimes hiding and sometimes revealing, overlapping, mixing and even altering the memories we have stored. As if we were made up of multiple overlapping planes, in which the impressions of what we feel intertwine and are shaped over time, depending on the emotional state in which we evoke them. Juxtaposing fifty-one drawings and two installations that evoke such distinct notions on the same subject is not innocent. It is not a competition between theories from different schools of thought because, in the light of this exhibition, they are all true, even if they contradict each other. They are all true precisely because they all coexist in time. My fascination with these subjects has been the guiding thread for the artistic interpretations I have been working on over the last few months, resulting in the selection of works that I am now exhibiting with the perhaps somewhat provocative aim of tapping us on the shoulder, even if only lightly, asking us to reflect beyond our visit to the exhibition, to take our thoughts with us and leave us pondering... After all, what does Time and Memory mean to each of us?
'Distensão da Alma' imagem do atelier / 'Distension of the Soul' image from the studio, 2022
Dispositivo de Tempo #12, 2022
cola, transferência de impressão, grafite e acrílico sobre papel / glue, print transfer, graphite, and acrylic on paper. 25 x 40 cm.
Invert Time Joke , 2021
Ampulheta, esfera de vidro e madeira. Dimensões Variáveis. / Hourglass, glass sphere and wood. Variable dimensions.
Ideia Simples Ideia Completa 1/4, 2021
carvão, barra de óleo e tinta acrílica sobre papel / charcoal, oil stick, and acrylic paint on paper. 85 x 110 cm
Fazes-me falta , 2021
poema, cadeira de baloiço, almofada, manta de crochet e tapete. Dimensões Variáveis / poem, rocking chair, cushion and crocheted blanket. Variable dimensions.
Fazes-me falta , 2021
O Sr. Manuel Rosa interagindo com a instalação ‘Fazes-me falta’ durante a visita à exposição que antecedeu uma 'Oficina de Desenho' com utentes da Associação Comunitária de Saúde Mental da Câmara Municipal de Odivelas. / Mr. Manuel Rosa interacting with the installation ‘Fazes-me falta’ during a visit to the exhibition that preceded a ‘Drawing Workshop’ with the Community of Mental Health Association of the Odivelas City Council.
(2025)
NOT a self portrait, 2021
34 desenhos / drawings
Guache sobre papel. Dimensões variáveis. / gouache on paper. Variable dimensions. 42 x 27,8 cm
2021 - Cartas de Mim
Os 14 desenhos desta série representam lugares-chave da minha vida, em alegorias quase-infantis numa aparente simplicidade reforçada pela economia de meios onde se sobrepõem traços negros, cartográficos, a tinta da china, com formas planas, figurativas, pintadas a guache, em composições que nunca ocupam a totalidade do suporte em papel artesanal que, por si, representa todos os lugares das minhas viagens.
É possível que eu continue a trabalhar nesta série, acrescentando desenhos de lugares-alegoria que, entretanto, me marquem.
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The 14 drawings in this series represent key places in my life, in almost childlike allegories with an apparent simplicity reinforced by the economy of means, where black, cartographic lines overlap with Indian ink, with flat, figurative shapes painted in gouache, in compositions that never occupy the entire surface of the handmade paper, which in itself represents all the places I have travelled to.
I may continue working on this series, adding drawings of allegorical places that have made an impression on me in the meantime.
2019-2021 - Esteiras
Tenho por hábito guardar sobras dos materiais com que trabalho para mais tarde os aproveitar e estes trabalhos resultam disso
mesmo: são feitos entrelaçando papeis reutilizados que acumulei ao longo de algum tempo, alguns que retirei do quotidiano que me rodeia como os folhetos que aparecem no parabrisas dos carros ou a publicidade que recebemos na caixa do correio e outros, como sub-produtos, que aproveitei de sobras de outros trabalhos que fui fazendo. Continuo a trabalhar nesta série e, possivelmente, em breve acrescento novos desenhos aqui no site.
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I have a habit of saving leftovers from the materials I work with so that I can use them later, and these works are the result of that: they are made by interweaving reused paper that I have accumulated over time, some of which I have taken from my everyday surroundings, such as leaflets left on car windscreens or advertising that we receive in our letterboxes, and others, as by-products, that I have salvaged from other works I have done. I am continuing to work on this series and will possibly add new drawings here on the website soon.
Sem título #1 - #9, 2020
guache sobre sobras de papel
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gouache on paper scraps
Ø 120 cm / 42 cm / 30 cm / 30 cm / 7 cm / 7 cm / 7 cm / 7 cm / 7 cm
Sem título (portal) 2021
guache sobre papel (desenho destruído) e fita-cola
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gouache on paper (destroyed drawing) and tape
28,5 x 19 cm
Sem título, 2020
folhetos e guache sobre papel
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flyers and gouache on paper
126 x 64 cm
Sem título, 2020
guache sobre sobras de papel
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gouache on paper scraps
Sem título, 2021
tinta acrílica e guache sobre sobras de papel, cola e poliuretano
acrylic ink and gouache on paper scraps, glue and polyurethane.
61 x 60 cm
Sem título, 2020
sobras de papel e guache / scraps of paper and gouache.
Sem título, 2019
sobras de gravura e guache / scraps of paper, discarded prints and gouache.
297 x 210 cm.